terça-feira, 10 de julho de 2007

Movimentos sociais já preparam novos protestos contra a transposição


À frente os índios cantavam o toré. No alto, a bandeira do Brasil dividia espaço com as dos movimentos participantes da manifestação e com uma faixa – “Não à transposição, conviver com o semi-árido é a solução”. Cantando palavras de ordem e guiados pelo ritmo indígena, os acampados saíram da área ocupada na fazenda Mãe Rosa, destinada ao início das obras do projeto de “integração das bacias do Rio São Francisco”, de cabeça erguida, em marcha rumo ao assentamento Jibóia, de trabalhadores ligados ao MST – Movimento Sem Terra, a 2km do centro de Cabrobó. “Esse é só o começo de uma série de mobilizações contra o projeto”, diz Plácido Júnior, da Comissão Pastoral da Terra de Pernambuco (CPT PE). Até agora não se sabe onde nem como será a próxima ação do movimento.

”Viemos exigir a imediata suspensão das ações que dão início às obras da transposição. Em sinal de outro desenvolvimento, voltado para a população e não para o capital, nos irmanamos ao Povo Truká e aos indígenas de todo o Nordeste na retomada desta terra, da Fazenda Mãe Rosa, desapropriada para a transposição, território Truká desde tempos imemoriais”, afirmam os acampados em manifesto. Foi para impedir o avanço das obras e para a retomada do território pelos Truká, que diversos movimentos sociais, juntamente com comunidades tradicionais, pescadores, quilombolas e povos indígenas, agregando mais de mil pessoas, ocuparam, no início na madrugada do dia 26, o canteiro de obras do canal norte da Transposição do Rio São Francisco, no Km 29 da BR, entre Cabrobó e Orocó (PE).

Por surpresa, ao chegarem ao terreno, depois de um mês do anúncio de início das atividades, só havia um buraco escavado. “O Exército estava lá só pra proteger a área pra as grandes empreiteiras fazerem a obra. Então, a partir do acampamento, surgiu mais essa denúncia”, acrescenta Plácido, ao lembrar que segundo informes nacionais a construção dos canais ficaria a cargo dos Batalhões de Engenharia do Exército.

Foram oito dias de acampamento. Nesse tempo, enquanto helicópteros sobrevoavam o local, as 1.500 pessoas que formavam a manifestação discutiram alternativas para o semi-árido; celebraram ato ecumênico junto aos bispos Luiz Cappio e José Geraldo, das Dioceses de Barra e Juazeiro(BA). Na tarde da quarta-feira, fizeram o enterro simbólico do projeto. Dentro do buraco encontrado, durante a visita do Ministro da Integração, Geddel Vieira Lima, cerca de 200 indígenas, representantes de 16 povos, dançaram um toré e impuseram um fim à transposição. Em seguida, foram colocados no buraco os marcos de concreto deixados pelo Exército, jogou-se terra, fincou-se uma cruz e, por fim, foram plantadas mudas de espécies nativas.

Além dos acampamentos, já se somam quase uma centena de manifestações públicas; o diálogo com o Governo segue, porém, paralisado. “Tem sido sempre assim com a transposição, o governo diz que quer dialogar, achar a melhor alternativa, mas na verdade não aceita a possibilidade de mudar de opinião, mudar o projeto”, diz Rubem Siqueira, integrante da CPT-BA, um dos coordenadores do acampamento.

Os Truká, na madrugada do dia cinco, ocuparam uma nova fazenda, a Lameirão, a oito quilômetros de Cabrobó para alimentar a demanda do território a ser demarcado. “A FUNAI criou um Grupo de Trabalho para identificar a área onde está o canteiro de obras da transposição como área indígena e reconheceu que o seu antecessor deu o aval da entidade a respeito da transposição nos territórios indígenas irresponsavelmente”, completa Rubem, dando uma informação que não esteve à vista nos veículos controlados por empresas privadas de comunicação.

A manifestação, ainda que reprimida com a força do aparato policial, cumpriu o papel de denúncia e conseguiu paralisar por algum tempo a transposição no eixo norte. “Até o grupo coordenador do projeto caiu. O Rômulo Macedo, foi demitido e nós continuamos aqui junto com os índios, para continuar a nossa luta”, lembra Rubem.


Por Mykaela Plotkin
Comunicação MNDH PE
Foto: João Zinclar

2 comentários:

Ivan disse...

Myka, pra mim o leiaute é esse. Tá ótimo! O q vc acha???

Beto Efrem disse...

Gostei muito, gostei mesmo. Poxa. Fiquei feliz com a qualidade do texto. Parabéns.

Só um pitaco. A letra do último post está grande demais. O tamanho da letra usado nas postagens anteriores é melhor, mais leve.

beijos!

Roberto